sábado, 25 de abril de 2009

Adrenalina

Adrenalina


É preciso buscar adrenalina!
É preciso buscar adrenalina?
É... preciso buscar adrenalina... Essa não é a resposta. Passou a ser preciso buscar adrenalina feito louco, mas por um motivo muito simples: a que existia exauriu-se com o sumiço da sensibilidade.
Você já observou que, quando tínhamos sensibilidade, qualquer canto de pássaro, qualquer cena de filme água com açúcar, qualquer gesto de atenção era suficiente para derramar adrenalina no sangue a ponto de disparar o coração, ferver as veias, aquecer as mãos, fazê-las suar de emoção? Muita coisa era motivo de emoção, boa ou ruim, não importava muito. O que interessava é que estávamos sempre envolvidos em uma montanha de sentimentos preenchendo espaços que hoje estão vazios.
Como é possível manter a sensibilidade quando a morte é tão banal quanto à vida? O nascimento de alguém já não carrega mais o milagre da Criação, como a morte não tem mais as cores do enterro. Ambos são tão-somente fatos como mais um acidente na estrada ou mais um show de rock que gera comentário por alguns minutos. Ao final desse tempo, o assunto tem que ser outro, sempre em busca de mais alguma adrenalina.
Qualquer atitude que beire o humano passou a ser infantil, piegas, um mico capaz de envergonhar o maior cara-de-pau da paróquia. Ridículo, falso, tosco, sonso, enfim, nessa linha, qualquer adjetivo serve.
Ficou difícil voltar à humanidade, no seu mais profundo significado. Somos sós e, para fugirmos dessa solidão incômoda, adaptamo-nos a um comportamento implantado por um estilo globalizado, sem mesmo questionar o que é que nós estamos fazendo. Não temos explicação para nós mesmos. Tornamo-nos macacos que imitam o tempo todo, sem ter a menor idéia de que as coisas podiam ser diferentes.
O tamanho do sofrimento dos jovens diante desse cenário é colossal. Qualquer coisa que os faça diferentes torna-se uma dor lancinante que nada mais é capaz de dirimir. Os pais, a essa altura do campeonato, embora tenham ensinado os filhos a serem assim “sociais”, não sabem como salvar a prole da tragédia grega em que se enfiaram. E não podem, porque ninguém é milionário pra suprir a tudo que um adolescente acha que precisa. E quanto mais se dá, mais está faltando!
Quando o ter não se destaca, entra em ação o desejo pelo perigo e pelo inédito. Aí, vêm os esportes radicais, o uso de drogas inofensivas, depois o experimento das substâncias novas no mercado, uma travessura com espingarda de chumbinho, um susto numa CDF da turma, brinquedos perigosos num parque famoso, um assalto, um cavalo de pau, um racha, uma morte, uma fuga... Aí a adrenalina chega a mil. Mas logo passa e será preciso outra loucura qualquer para ter aquela sensação de novo. E mais, e mais.
Essa busca não está mais restrita a jovens começando a conhecer a vida. Já atinge os adultos, os coroas, às mães, pais, avós, a toda uma época que perdeu a sensibilidade para ser feliz com o simples, o barato, o humano.
Às vezes nos sentimos uns ETs no meio de toda essa gente, mas no fundo, se temos muito mais adrenalina sem a transgressão tão cultuada, é porque ainda nos sobraram sentimentos. É um consolo.

Um comentário:

Betzy,poderosa! disse...

Mônica,que texto hein?Amei!Principalmente no final quando você coloca que temos adrenalina na dose certa para atravessar as transgressões do século XXI.Isso porque os valores foram cultivados com sentimentos que jamais deixamos morrer.Parabéns,mas pode estar certa que não necessitamos de doses maiores de adrenalina pois as grandes emoções,e as grandes paixões já foram conquistadas e merecem ser conservadas e preservadas.BETZY