sexta-feira, 4 de março de 2011

Na ponta do iceberg

Na ponta do iceberg
Aos olhos que não encantam ninguém

Não tem saída. Esquizofrênicos somos todos e todos pensam que vivem ao lado de um. Só não veem que ao seu lado há o seu próprio pânico e incompreensão do mundo. E no mundo, um outro bando de loucos – que me perdoem os corintianos pelo uso de sua antonomásia – que também não se sabem loucos.
É possível que não haja mesmo saída, mas o fato é que essa loucura em que todos estamos mergulhados nos faz acreditar piamente que a saída é logo ali, num comprimido mágico, numa macumba bem forte, numa bolada da loteria.
Não há mágica, não há números da sorte, não há medicação que responda o que a alma vem questionando desde que a vida veio a Terra. Mas, para consolo dos loucos, há quem estude essa nossa impaciência e há quem diga que “amanhã será outro dia”. Se for mesmo um dia novo, apenas o Sol nascerá à mesma hora e eu, talvez, acorde com a energia que o dia vai me exigir.
Parece coisa de louco? Parece-me que esse é o efeito real dos sistemas que o próprio louco implantou no planeta: não há prazer, há trabalho; não há verdade, há conveniência; não há amigos, há relações necessárias; não há conversa, há acordos; não há sequer Deus, há representantes Dele, e dos mais capacitados a negociar em Seu sagrado nome.
Não se vive o sistema, mas só se come o prato que se prepara; não se casa com o sistema e nem com ele se têm filhos, mas não se mora fora de seu teto, nem se dorme em cama que por ele não foi feita. O sistema não faz a minha nem a sua cabeça, mas degola-nos impiedosamente a guilhotina que o sistema artisticamente criou para impor a ordem e o progresso.
O sistema global e abrangente nos engoliu a alma, e mais, todas as outras que ainda virão para cá e nem imaginam o que as espera.
Sejamos, no entanto, esperançosos. O mundo é dos loucos! E espero, sinceramente, que algum deles faça a loucura de arrebentar com todos os sistemas e proibir a invenção de qualquer outro, embora corramos o risco de um outro maluco achar que proibir também é uma forma de sistematizar de novo mundo que então viveríamos.
Todos os riscos são as verdades que valem. Todas as precauções, mentiras grotescas e pálidas esperanças de um futuro qualquer. E é somente por isso que a humanidade continua construindo castelos de areia numa turbulenta ventania desértica. Não percebemos que tudo cai logo que pensamos ter concluído, e que a única construção que não é levada pelas intempéries é o pensamento do presente, o sentimento do presente, o desejo satisfeito agora e a proporção dessas três pérolas dentro das conchas humanas com quem partilhamos esse presente.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Rolam as pedras

Rolam as pedras

Houve tempo em que “Rolam as pedras” só nos fazia lembrar dos Rolling Stones ou do grande sucesso de Kiko Zambianchi.
Hoje, elas rolam impiedosamente sobre Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo e tantos outros cantos desse Brasil paulista, mineiro, nortista e por aí vai. É evidente que quando não há possibilidade de se morar em local seguro, sobram os morros e as encostas para levantar o que chamam de casa, porque ali nem o governo vai reclamar a invasão.
Enquanto o governo fecha os olhos para tamanha barbaridade – pois vidas e vidas não vão se mover para pedir mais -, agora tem que se fazer presente, mas ainda se espreguiça diante da destruição que não poupou nem pobres calados, nem classe média desinformada por quem devia fiscalizar a situação.
Nosso solo já começa a gritar reivindicando os poros que foram asfaltados e fechados pela construção desordenada. Não tem pra onde correr, a água é bem que o homo sapiens não domou nem vai fazê-lo jamais. A água perdeu espaço e vamos perdê-la também. Por um lado, ela abre a fórceps caminhos por onde possa passar e reconquistar seu leito, seus lençóis, seu sono bom. Por outro, onde está acomodada, temperam-na com veneno, tirando-lhe o sossego e muitas vezes a vida.
Faltam poros, cidades com outros paradigmas, homens com visão do todo.
Dos mundinhos particulares e da ganância, a governança irresponsável se acavala uma após a outra.
Não custa muito que a consciência entre a ferros nos que sobrarem. Seus quintais já estão sendo engolidos por água e pó.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A hora da Terra

A hora da Terra


Acho mesmo que o mundo vai acabar. Em 2012, como já disseram os maias e tantos outros. Definitivamente a natureza se rebelou contra a podridão humana. Revolveu o lixo abaixo do lixo emocional. Quem era bom, livrou-se de ver coisa pior, quem era lixo misturou-se a ele.
Não sejamos hipócritas! O homem, do jeito como se desenvolveu deformado, não tem muito que fazer para voltar a ser puro e ignorante, como fomos criados. A saída, provavelmente, será tirar tudo o que nos levou a essa situação de pragmatismo doente, de indiferença completa, de intolerância absoluta a tudo. Bem que houve quem nos alertasse: veio Cristo, Buda, Ghandi, Martin Luter King, Chico Xavier, João Paulo II, Dalai Lama, enfim, não foi por falta de aviso que o homem entrou pelos descaminhos humanos.
Quando Martin Luther King disse: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” , não tinham idéia de quantos gritos ainda ouviríamos e de quanto silêncio precisávamos.
Depois, Ghandi deu de bandeja a chave da felicidade, mas ninguém entendeu direito. Era difícil tornar a teoria em prática, então deixaram pra lá: "Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia" – Ghandi.
O fato é que está longe da harmonia "Uma civilização (que) é julgada pelo tratamento que dispensa às minorias."(Ghandi). Agora imaginem quando o que ele chamava de minoria tornou-se maioria dominada! Não há muito mais que possamos fazer? A impotência foi sacramentada pelas próprias Constituições, cujos deveres do Estado e da sociedade são ignorados porque todos que têm voz continuam brigando pelos direitos que não atingem a quase ninguém! Não estou dizendo que não se devam cobrar direitos ou que ninguém cumpre deveres constitucionais, mas o fato é que pela grandiosidade do mundo e de seus labirintos, o que acontece é quase nada. Ainda assim, esse grão precisa continuar na terra, regado a sentimentos e cuidados.
Pode ser que o Criador tenha perdido a paciência de vez e resolvera fazer a limpeza Ele mesmo. Quem não sabe manda, quem sabe faz. Perdemos o bonde.
Como uma última tábua de salvação, vale a pena, ainda que estejamos no fim, lembrarmo-nos de avisos bons: “Ame profunda e passionalmente. Você pode se machucar, mas é a única forma de viver o amor completamente.” - Dalai Lama.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Apaixonada pelo vento

Apaixonada pelo vento

Vejo as inúmeras paixões maquinadas pela sétima arte, pelas telas domésticas, mas poucas com a intensidade das que temos na adolescência. Parece que cada pequeno movimento com quem amamos leva-nos à quase inconsciência de prazer. Mas o prazer precisa ser lento, precisa ir tocando aos poucos cada degrau da intimidade... senão não tem graça, queima etapas da construção da paixão.

Nos filmes, ainda derramam um pouco mais desse mel lento, denso que custa a chegar à boca. Embora inúmeras críticas não reconheçam esse processo no filme Crepúsculo, deixei-me embalar pelo trecho romântico que a narrativa mostra. A impossibilidade, o desejo que aumenta a cada segundo, a inconsciência, a irracionalidade, todos são elementos que nos fazem de novo voltar às maiores emoções vividas. E não as tendo, se já passamos da oportunidade, apaixonamo-nos até pelo vento.

É um reviver sem elementos vivos, é um frio na barriga sem o encontro escondido ou arriscado. Mesmo no Crepúsculo de nossas vidas, todo ser humano devia ter a obrigação de sentir para sempre essa emoção. A insensibilidade pelo comodismo ou pelas circunstâncias difíceis que a vida nos apresenta não pode se instalar na alma em tempo algum. Simplesmente porque a melhor coisa da vida é sentir. E com total intensidade.

Ainda que as grandes emoções com o companheiro de tantos anos não sejam tão arrebatadoras, essa explosão precisa continuar, mesmo que seja só diante da natureza. Uma rajada de vento, muitas vezes, levanta-nos a cabeça, sacode e arrepia o corpo como foi um dia.

No entanto, a própria sociedade julga que impulso demais provoca o tombo... das relações estáveis, das relações familiares e até das com amigos que tenham uma idade em que alguns arroubos já não podem ser manifestos. Aí, o ser humano entristece, acha-se ainda mais velho, mais tosco, mais ridículo que a própria regra social. E está tudo acabado: os sorrisos, os olhares, as taquicardias, o arrepio, o impacto da paixão.

Se eu fosse Deus, metia um antibloqueador de paixão nas pessoas. Assim todas elas continuariam eternamente a sentir o magma dos vulcões se derramar por todas as veias... e todo mundo ia descobrir que dinheiro nenhum compra esse êxtase. Nenhum bem material se aproxima de tamanha felicidade. E os ladrões iam desistir de roubar, e os chefes iam sorrir o tempo todo, e as professorinhas iam se sentar no chão e aprender com seus alunos, e o homem nunca mais bateria numa mulher. E a mulher nunca mais reclamaria de seu homem. Porque assim é que é quem se apaixona. Nem que seja pelo vento.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Um dia...

Um dia...

Eu não acredito. Não quero acreditar no que está acontecendo neste país. O primeiro, o segundo, o terceiro poder e até o quarto – leia-se mídia – engordam pelo alimento da propina - praticamente uma Instituição Brasileira!

Aquele que era chamado de “1ª dama” no governo Collor, Sr. Paulo Otávio, agora número 2 da célula criminosa que se desnuda ao povo sem qualquer cerimônia, amontoa-se e multiplica-se em seus discípulos – até Dona Eurides Brito, que foi Secretária da Educação tanto tempo, de educadora tornou-se pupila.

As declarações de que a situação é de tal contaminação criminosa que dificilmente se terá o desvendamento de mais esse esquema sem uma intervenção federal são assustadoras. E mais assustador ainda é o sentimento de derrotados absolutos de que estamos imbuídos. Chegamos a crer que a esfera federal também pode estar derrotada pelo corporativismo, pela corrupção, pela face antiética tão cônscia de que caminha no bem. Bem de quem, cara pálida?

Enquanto os aposentados reivindicam a devolução do que lhes foi seqüestrado pelo fator previdenciário – herança maldita de FHC – e as escolas se transformam em antros de ineficiência moral e cultural, no Brasil há os que se embebedam com Chandon no melhor copo de cristal.

A gente nem quer Chandon, nem copo de cristal, bastava água de qualidade, arroz, feijão, verduras e uma lasquinha de carne no prato. A gente também não quer mais nada pela metade, como bem o disse o Titãs. Estamos fartos do pouco, do nada, do vazio, do imoral.

Se arruda servisse mesmo pra dissipar más energias, não estaria no centro do furacão que devasta a capital da República. Nunca mais hei de colocá-la atrás da orelha, corro o risco de perder o brinco.

Temos sim inúmeros caminhos que se desviam da revolução, da guerra civil, da desobediência irrestrita, mas tem horas que a gente quer mesmo é tomar as armas das mãos dos traficantes e dirigi-las ao Congresso, às Câmaras distrital e municipais, às Polícias que abandonaram seu papel, aos governantes que nos desgovernam a vida.

Não estimulo nada disso, embora o desejo seja um bicho acuado no meu peito, no seu, no do povo brasileiro.
Um dia, alguém será um líder que, ainda que ferido de morte, há de erguer uma bandeira verde-amarela que não se enrubesça de vergonha. Um dia...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Se você me entender...

Se você me entender...

Às vezes fico imaginando o que teria mudado se, na ocasião da vinda de Cristo, tivéssemos desde o começo acolhido a sua missão como verdadeira. A história seria outra, porque nossos passos teriam sido no mínimo pautados pelo amor e pelo perdão: duas armaduras fortes o suficiente para organizar as relações humanas.

Não teríamos que abraçar religião alguma para seguir a filosofia do amor – a melhor “sacada” ideológica já pensada. Mas Jesus, como filósofo e pensador, não quis interferir no livre arbítrio de ninguém. Não era esse o caminho em que acreditava. Não repetiria o autoritarismo dos pais que obrigam seus filhos a fazerem o que não entendem. Era preciso primeiro o entendimento para depois a ação ser contundente. Não confundia autoridade com autoritarismo. Sabia que podia exercer sua autoridade, mas somente diante daquele que se curvasse a ela. E os que se curvaram foram heróis, persistentes, abnegados de tudo, foram exemplos de iluminação para uns, de burrice para outros.

E entre esses outros ficamos nós, execrando a quem perdoa não sete, mas 70 vezes sete, recrucificando os que amam a quem os faz sofrer. Não entendemos até agora qual é a vantagem da filosofia do Cristo. É porque não descobrimos ainda o profundo prazer do sentir sem que ninguém nos faça nada, do sentir simplesmente pela nossa própria ação. Não nos cansamos de comer no lixo, ou seja, alimentar-nos das migalhas alheias. Quando nos nutrimos do que nós próprios colhemos, e preparamos no fogo brando do conhecimento, e saboreamos com a simplicidade de nossa natureza, aí a satisfação é completa. Era mais ou menos isso que o Cristianismo primeiro esperava ensinar, mas com a interferência dos interpretadores como eu, desvirtuou-se muita coisa.

Às vezes ainda me dá vontade de fazer a única coisa que Ele nos pediu em favor de sua lembrança: repartir o pão e o vinho, como fizera com os seus. Mas o ritual tornou-se tão distante dEle, que nem sempre me sinto atendendo ao seu pedido. Seu único pedido. E escolho tentar entender o que de fato gostaria que fizéssemos para senti-lo mais próximo.

Lamento dizer, mas não dá pra dispensar essa sensação, é muito mais prazerosa que um vício, que o amor humano, que a carne, que o elogio, que a matéria. É única, mas vale lembrar que isso não me torna uma fanática, uma carola incorrigível ou coisa que o valha. Isso me torna mais humana, o que já não é tarefa das mais fáceis, quando se vive no meio de uma guerra que só conhece a barbárie. Também não se tornou um refúgio, porque não me escondo em nenhuma caverna nem repudio o asfalto em que me encontro. Estar no mundo é a parte mais difícil pra quem quer seguir o Cristianismo, mas também é a mais necessária. Como saber o gosto do mel quando só dele se provou?

Se tivéssemos entendido tudo o que Ele disse logo de cara, já estaríamos em estado etéreo, sem a matéria que apodrece, sem as misérias dos desejos. E a Terra já estaria numa nova era glacial, tirando todos nós daqui com uma única baforada de gelo. E estaríamos num outro planeta melhor, com mais Da Vinci, mais Mozart, mais Gandhi, mais rock, mais cor, mais crianças, mais velhinhos de bochechas cor de rosa, mais água, mais ar, mais bichos e luas. Não estaríamos aqui. Estamos fazendo um estágio – difícil, sem dúvida – que nos graduará para missões agradáveis, porque nenhuma delas será penosa, porque olharemos pra elas com um sorriso, porque toda dor teremos o poder de cessar.

Se tivéssemos entendido... não estaríamos nos nivelando aos animais, aos predadores cruéis, que mais matam por prazer que pela fome. Não entendemos ainda que dividir o pão pode ser o primeiro passo em direção à cura humana.

Mas não desisto. Continuo questionando, refletindo e mudando o que dá pra mudar. Quanto ao que não consigo ainda, Ele sabe qual é o meu tempo. Às vezes, levo 33 anos pra descobrir que o melhor era ter tentado. Às vezes, alguns dias bastam pra eu resolver uma vida. É assim que é. E não estou me sentindo incompreendida mais.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O obituário do Zé Rodrix

Depois de ler o texto abaixo, analisei e, de fato, acho que não é uma fraude. Acho mesmo que o Zé Rodrix deve ter escrito porque há trechos que são muito o jeito de ele pensar. Compartilho com vocês.
O obituário do Zé Rodrix (escrito pelo próprio e lido em seu funeral):

Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje não mais. Pode ser de fulminante ataque cardíaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da família e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, já me encontrem morto, com um sorriso nos lábios.
Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, já que não poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que não cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso.
Peço parcimônia nos eflúvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedência uma fita de piadas gravadas para animar o velório e manter o pessoal na boa.
Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir.”
Lá só deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Não pretendo puxar a perna de ninguém à noite e nem assombrá-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possível. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus próprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre já será um grande intróito para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como já vou chegar lá, tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que não será difícil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as músicas que eu tenha feito. Minha morte servirá certamente para que se livrem não apenas de mim mas também de minhas obras. Os herdeiros também não merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da política do “VAI TRABALHAR, VAGABUNDO”, como meu pai fez comigo, já tomei providências para que essas músicas não lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velório moderno, recomendo músicas de carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num sábado à tarde, ser enterrado num domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte.
Muito grato.
Beijos.
Zé Rodrix
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Saudades do Zé

Saudade do Zé

De fato, o homem jamais vai aceitar a perda pela morte. E é bom que seja assim. É por isso que nos preservamos e protegemos aos que amamos mais que a nós mesmos. E quanto menos temos o poder de evitar o inevitável, mais nos sentimos traídos pelo que deveria simplesmente ser natural.

Dia 22 de maio perdi um amigo, e nenhuma outra designação cabe melhor que essa: amigo. Zé Rodrix entrou em nossas vidas pelas mãos da Tetê, minha filha, quando ela fez contato com o Clube Caiubi em São Paulo, para promover um encontro de compositores aqui no interior do Estado. Em princípio, achei que, mais que um sonho, conhecer o Zé não faria parte da vida de uma fãzinha tão desimportante como eu. Isso era coisa pra Tetê que já nascera artista. Ainda assim, atrevi-me a mandar a ele um livrinho meu, porque soube que ele gostava muito de ler.

Daí pra frente, um universo que eu não fazia idéia começou a ser desenhado com nossos encontros em família, nossas conversas, nossas risadas. Veio com a Júlia e a Bárbara ao meu humilde bangalô para comermos juntos, sentarmo-nos no chão pra olhar discos, livros, bem do jeito que achei que era, antes de sabê-lo melhor. Autografou-me um livro dele, falamos do Taiguara, da Elis, do Clube Caiubi e de todas aquelas figuras fantásticas com quem trabalhava: Sá, Guarabira, Tavito e tantos outros. Descobri até que eu tinha um vinil da Rosa Maria produzido por ele.

Ele acompanhou o primeiro trabalho sério de gravação do Hai Kai, encantou-se com os meninos tocando, compondo... Enfim, fez um lindo depoimento a respeito da banda no dia do lançamento do cd. Veio de SP especialmente para participar desse lançamento, e sua generosidade foi tamanha com quem ainda engatinha na pauta de que ele é dono, que passamos a considerá-lo padrinho musical do Hai Kai. E assim é. E assim vai ser sempre, porque não há como esquecer o que ele é, o que ele diz, o que ele doa de si mesmo.

Eu não sabia que doía tanto..., mas como acredito que a alma humana não se acabe com a morte, sei que estaremos juntos, numa casa de campo, no planeta que for melhor pra nós. O Zé já tinha desistido de adivinhar o que aconteceria depois, ele achava melhor esperar para ver quem é que tinha a razão. Talvez tivesse a convicção de que viveria por mais 30 anos e que, com a descoberta humana de todo o processo vital, não morreria mais. Ele não viveu os 30 anos pra ver, mas viverá muito mais por tudo que escreveu, cantou e falou, por tudo o que nos deu de afeto, sem qualquer expectativa de ser retribuído. Amava pelo prazer de sentir, cantava pelo prazer de espalhar sentimento, chorava pelo prazer de se entregar à melhor emoção da arte de verdade.

Que saudade doída, Zé... E ainda hoje te ouvi no rádio... com tanta vida! Eu sei que essa vida te acompanha, mas nós, tão pequenos e egoístas, ainda queríamos que você ficasse mais. Desculpa-me não entender ainda o que é que te espera do outro lado. A gente não te queria para o cosmos, mas só para nós mesmos. A gente tem noção de que por lá há coisa maior que o nosso desejo, mas não temos ainda a grandeza do desapego porque a ferida ainda está aberta. Quando fechar, vamos ver tudo bem melhor e, quem sabe, apreciaremos a tudo com o distanciamento suficiente para enxergarmos a tua vida mais nítida, maior e mais bonita ainda.

Por ora, fica bem e recebe esta homenagem que te prestamos.

sábado, 25 de abril de 2009

Adrenalina

Adrenalina


É preciso buscar adrenalina!
É preciso buscar adrenalina?
É... preciso buscar adrenalina... Essa não é a resposta. Passou a ser preciso buscar adrenalina feito louco, mas por um motivo muito simples: a que existia exauriu-se com o sumiço da sensibilidade.
Você já observou que, quando tínhamos sensibilidade, qualquer canto de pássaro, qualquer cena de filme água com açúcar, qualquer gesto de atenção era suficiente para derramar adrenalina no sangue a ponto de disparar o coração, ferver as veias, aquecer as mãos, fazê-las suar de emoção? Muita coisa era motivo de emoção, boa ou ruim, não importava muito. O que interessava é que estávamos sempre envolvidos em uma montanha de sentimentos preenchendo espaços que hoje estão vazios.
Como é possível manter a sensibilidade quando a morte é tão banal quanto à vida? O nascimento de alguém já não carrega mais o milagre da Criação, como a morte não tem mais as cores do enterro. Ambos são tão-somente fatos como mais um acidente na estrada ou mais um show de rock que gera comentário por alguns minutos. Ao final desse tempo, o assunto tem que ser outro, sempre em busca de mais alguma adrenalina.
Qualquer atitude que beire o humano passou a ser infantil, piegas, um mico capaz de envergonhar o maior cara-de-pau da paróquia. Ridículo, falso, tosco, sonso, enfim, nessa linha, qualquer adjetivo serve.
Ficou difícil voltar à humanidade, no seu mais profundo significado. Somos sós e, para fugirmos dessa solidão incômoda, adaptamo-nos a um comportamento implantado por um estilo globalizado, sem mesmo questionar o que é que nós estamos fazendo. Não temos explicação para nós mesmos. Tornamo-nos macacos que imitam o tempo todo, sem ter a menor idéia de que as coisas podiam ser diferentes.
O tamanho do sofrimento dos jovens diante desse cenário é colossal. Qualquer coisa que os faça diferentes torna-se uma dor lancinante que nada mais é capaz de dirimir. Os pais, a essa altura do campeonato, embora tenham ensinado os filhos a serem assim “sociais”, não sabem como salvar a prole da tragédia grega em que se enfiaram. E não podem, porque ninguém é milionário pra suprir a tudo que um adolescente acha que precisa. E quanto mais se dá, mais está faltando!
Quando o ter não se destaca, entra em ação o desejo pelo perigo e pelo inédito. Aí, vêm os esportes radicais, o uso de drogas inofensivas, depois o experimento das substâncias novas no mercado, uma travessura com espingarda de chumbinho, um susto numa CDF da turma, brinquedos perigosos num parque famoso, um assalto, um cavalo de pau, um racha, uma morte, uma fuga... Aí a adrenalina chega a mil. Mas logo passa e será preciso outra loucura qualquer para ter aquela sensação de novo. E mais, e mais.
Essa busca não está mais restrita a jovens começando a conhecer a vida. Já atinge os adultos, os coroas, às mães, pais, avós, a toda uma época que perdeu a sensibilidade para ser feliz com o simples, o barato, o humano.
Às vezes nos sentimos uns ETs no meio de toda essa gente, mas no fundo, se temos muito mais adrenalina sem a transgressão tão cultuada, é porque ainda nos sobraram sentimentos. É um consolo.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Fome de contato

Fome de contato

Com o progresso a olhos vistos em todas as atividades humanas, não seria de se estranhar que a árdua tarefa de ser pai, mãe, filhos adultos, familiares de quem tem dificuldades especiais também passasse pelo processo da terceirização. E, como sói ocorreria, terceirizaram a educação, a alimentação, os cuidados com a higiene, as regras de comportamento – quando estas existem -, enfim, a infância, a adolescência, a terceira idade e a deficiência física e mental.
Como o prestador de serviços para a criança e o adolescente é a escola, ela que se esfalfe para fornecer o produto completo aos 17 ou 18 anos daquele ser que pouca utilidade tem dentro de casa. Evidentemente, sob o reflexo do sistema capitalista em que estamos todos imersos, quem nada produz nada vale.
Crianças, adolescentes, velhos e deficientes são, enfim, o estorvo socioeconômico que ninguém quer arcar. Não havendo outra saída, são recolhidos nas sedes prestadoras de serviços, para rápida transferência de responsabilidade dos parentes para quem puder segurar o rojão.
E depois há quem diga que o capitalismo é um sistema de oportunidades sem igual, que quem quer, de fato, consegue chegar lá. Lá onde, Cristo? Na sinuca de uma terceirização de afeto que não é o dos pais, nem dos filhos que se livram dos idosos, nem dos familiares que mantêm a distância do deficiente que tanto exige de todos!
Era preciso terceirizar ou mecanizar, sim, o individualismo capaz de pisar no último suspiro de humanidade que nos resta. Assim, seríamos necessitados da companhia de todos, porque todos teriam alguma coisa a nos acrescentar, mesmo que seja o aprendizado de que todo trabalho que a convivência impõe tem também seus frutos: o retorno do carinho despendido, a preocupação e o auxílio do outro quando não formos mais assim tão “perfeitos”, jovens e capazes; o despertar da fome de contato verdadeiro.
Nossos filhos não podem ser peso afetivo, nem quando não vieram por nossa escolha. Nossos idosos não podem ser um peso morto, nem quando esperam numa cama o fim de um destino terreno. Nossos deficientes não podem ser desamados porque possuem as limitações cuja presença julgamos imperdoável.
O ser humano, em quaisquer condições de idade, de limitação ou de imaturidade, certamente tem ilimitados valores em aspectos que nem supomos, mas que precisamos desvendar pelo conhecimento e pelo sentimento de que nos gabamos ter só porque somos pessoas.
Pessoas não se ignoram, não se livram das outras, não precisam da idealizada perfeição. Pessoas deviam ter olhos para ver o quanto o imperfeito nos cresce, deviam ter ouvidos para ouvir a voz de quem viu mais que nós, deviam ter tato para sentir na pele o prazer de um afago. Pessoas nasceram para praticar a mais saudável das habilidades de que somos dotados: a humanidade.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Mosaico macabro

Mosaico macabro
"Se eu vi mais longe, foi por estar de pé
sobre ombros de gigantes." Isaac Newton

Não é à toa que abrir escola ficou mais fácil que abrir boteco. Pudera! É uma fábrica de dinheiro que, bem “administrada”, multiplica o capital - o que não é nada complicado depois que aluno virou mercadoria e professor virou massa de manobra contribuidora do enriquecimento ilícito de tantos espertalhões que se dizem educadores.
Eu explico. A maioria das pessoas não sabe que um significativo número de escolas particulares brasileiras contrata professores, muitas vezes, sem registro na carteira de trabalho, paga a maior parte do salário “por fora”, o que caracteriza um drible fantástico nos impostos que deviam pagar, e compromete sobremaneira a aposentadoria de um trabalhador que virou um nada.
O professor, como troco justo ao que é explorado, finge que ensina, o aluno, que não encontra qualquer afinidade com o saber, finge que aprende, e, no final das contas, todos fingem que existe um belo trabalho de ensino-aprendizagem porque o prédio é lindo, os equipamentos enchem os olhos e os professores posam de pessoas felizes e realizadas como se o seu papel tivesse sido cumprido.
O fato é que tudo que é sufocado, e ainda por cima sem lucro para todos, uma hora começa a apodrecer. E o mau cheiro já começou: alunos não respeitam ninguém dentro da instituição (e não há por que respeitar), professores perdem o juízo e partem para briga judicial com as escolas, ou se envolvem em atos mais sérios como matar donos de escola – coisa que, aliás, já se tem notícia -, alunos agridem colegas e até professores, sem que ninguém possa pôr a boca no trombone e dizer para o mundo que isso é fato; por fim, pais perdem a noção do verdadeiro estágio educacional em que seus filhos estão, visto que o que chamam de avaliação é um mero blefe dentre tantos outros que compõem esse mosaico macabro.
Ninguém consegue mentir o tempo todo e para todos. A sociedade já começou a ver o tamanho do buraco moral e profissional que as mais lindas escolas apresentam. Nem preciso falar da escola pública. Essa já se destruiu a tal ponto, e no mundo todo, que nos EUA uma escola passou a desconsiderar esse nome “escola”, preferindo chamar aquilo de espaço de aprendizagem. Quem sabe assim a vergonha do que representa a escola formal se dissipe e alguém se digne a ir ali para estudar.
Diante dessa realidade, o que resta é exaltar talentos natos de jovens que manifestam uma habilidade extraordinária na música, na matemática ou em qualquer outra área. Ficou claro que notícia mesmo, só nesses casos. E, como dá IBOPE, as grandes agressões ou situações como crianças de 5 e 6 anos planejando assassinar a professora é que ganham espaço. Até Brasília, não só pela podridão política, mas agora pelos escândalos de brigas violentas em escola, é manchete de vez em quando.
Quando se eliminou a exigência do respeito à etiqueta (pequena ética), eliminou-se também a importância dos grandes conceitos éticos, que se destinavam à harmônica convivência entre as pessoas.
Está certo que a ética é uma morada em constante construção, mas pelo menos todos concordavam que os tijolos eram indispensáveis. Embora a decoração e as cores possam não constituir consenso de todos os seres humanos, não é possível que desejem habitar uma ruína cujas paredes não tenham reboque e as janelas sejam usadas como portas.
Por fim, o golpe mortal desferido contra a educação veio da própria sociedade (lar, igreja, centros de convivência de qualquer ordem), que ignorou a etiqueta, a ética e a vida. Soltou todas as rédeas que impunham limites aos acordos, diálogos e ações, para encontrar a única fonte de satisfação: o prazer. O prazer a qualquer custo revirou a tecnologia em vício e o homem em poço sem fundo de intolerância. O resultado não poderia ser outro senão o reflexo do macrossistema em um microssistema chamado escola.
Dessa reflexão pode-se imaginar qual futuro nos espera. Cabe a cada um consertar a sua própria casa e a si mesmo, em primeiro lugar, como bem nos recomenda Confúcio.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Obituário na TV

Obituário na TV

"Eu consigo calcular o

movimento dos corpos celestiais,

mas não a loucura das pessoas."





Tange o fantástico a redução lastimável do espaço que restou à arte na TV. Depois que descobriram o poder de abrangência dessa máquina, ela tornou-se maldita – segundo a acepção de “que não tem seu valor artístico reconhecido”. O negócio – no sentido lato da palavra – fatura horrores espalhando o que move o mundo: de um lado o masoquismo, de outro, o sadismo.
A cada tragédia sangrada na tela, há mais uma caixa mágica estacionando boquiaberta diante do sádico que se alimenta da dor alheia (ignore o pleonasmo) , ou do masoquista, curtindo cada chicotada como se fosse no próprio lombo (ignore-o também). E que prazer... que gozo o sangue provoca! É tão intensa e doente a exacerbação desses dois pólos da psiqué, que só a ganância patológica perdera a noção do estrago que certas notícias provocam.
Assiste-se a um verdadeiro obituário da arte, cultura, beleza, sentimentos agradáveis, ações louváveis, percepções filosóficas, discussões construtivas ou debates com algum nível. Justiça seja feita, há exceções. Mas a imagem corrente é a da discussão “elevada” se A traiu B, se C tem razão em condenar o comportamento de D, se E vai acrescentar mais silicone nos seios de fazer inveja a qualquer desenho animado, ou se F foi morta com ou sem requintes de crueldade, com ou sem intenção de, com ou sem o uso de tal instrumento, com ou sem violência sexual, enfim, com ou sem algum detalhe que faça o público fantasiar, a cada episódio mórbido, de que maneira o outro sofreu, de que tamanho foi sua dor.
Mas o que é cada vez maior é a dor que se deseja ver. E o pior é que é uma fraqueza humana querer participar das tragédias como se fossem novelas revelando, capítulo a capítulo, um detalhe mais sombrio ainda.
O interessante é que ninguém está reclamando da falta de músicas de qualidade, da falta de programas com conteúdo teatral enriquecedor à alma. Ou seja, relaxamos e gozamos diante do sepultamento do que nos permitiria continuar a ser humanos. Mas fomos alimentados com instintos mais temperados que sentimentos considerados insossos. Pode ser um consolo para os que sabem quanto essa escolha rende atrás das lentes filmadoras, agora, nós, que ainda queremos enxergar o mundo com lentes azuis e não vermelhas, precisamos de arte, em todas as dimensões.
Enfim, a TV virou uma escola de aperfeiçoamento para bandidos: ensina os melhores golpes, inspira a crueldade, a solução fácil para acabar com a pobreza, como garantir o poder apontando uma arma para a cabeça do outro, como assegurar a fidelidade da pessoa amada promovendo o terror do cárcere, da violência física ou psicológica. Não digo que não devamos saber o que acontece por aí, mas não queremos só saber o que acontece por aí. “A gente quer comida/ Diversão e arte”. “A gente quer dinheiro/ E felicidade”. E se os senhores da mídia nos permitem, queremos voltar a pensar, o que nos evitaria um Alzheimer precoce, uma arteriosclerose aos trinta anos. Precisamos continuar pensando para pelo menos calcular o movimento dos
corpos
celestiais, mesmo que jamais sejamos capazes de calcular a loucura humana.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O submundo da fama

O submundo da fama


Embora chamem de roda-viva a rotina dos famosos, talvez o ideal fosse chamar de “carne viva” o que passam na realidade. A verdade é que grande parte deles, especialmente os músicos, não sabe mais o que existe no mundo que não seja o seu. E o seu não é o que aparece na tv. O seu é um submundo inominável construído num palco amoral de drogas, desamor, esquecimento e solidão.
Geralmente, são profundamente carentes de amigos, mas, quando conseguem algum que de fato não o são por interesse, dois dias depois não sabem sequer quem são, de onde conhecem, porque as drogas já fritaram seu cérebro o suficiente para esquecer tudo. Continuam sozinhos, e bebem mais um pouco para fugir disso, mas não percebem que já podiam estar com um monte de pessoas que realmente admiram o que fazem. Lutam, lutam para terem o reconhecimento e, por fim, quando são reconhecidos, não aproveitam o que há de mais valioso: o verdadeiro carinho de quem os aprecia. É mais importante dormir com uma garota diferente a cada hora, experimentar uma droga diferente a cada show, tomar uma bebida exótica a cada festa, ser falsamente elogiado a cada entrevista, estar mal-amado a cada dia e ficar sozinho a cada intervalo de temporada, a cada viagem de descanso, a cada manhã depois da farra.
O computador passa a ser um companheiro de madrugadas vazias, mas sabe lá se o que se lê na conversa tem verdade, ou se é também um monte de baboseiras pra agradar a quem se quer algum favor.
O fato é que esse submundo não tem servido de felicidade pra ninguém. É tão ilusório para o famoso quanto para os que os admiram. É tão ruim para os que vivem nele quanto para os que acham que é maravilhoso viver nele. Não é parâmetro bom pra ninguém. Não é figura pública boa pra ninguém. É deprimente saber que um sujeito que ganhou visibilidade por talento ou não desperdice essa condição dando aos seus fãs o exemplo de que o submundo em que vivem é que é maravilhoso. Mesmo que queiram viver nesse submundo, não têm o direito de servir de exemplo pra ninguém. Não têm o direito de engrossar as fileiras do crime, da violência, do tráfico, da irresponsabilidade num mundo em que todos estão exatamente na contramão dessa estrada.
Sinto muito se os drogados, bêbados e violentos não percebem o que estão fazendo com os jovens do nosso mundo, mas eu não posso me omitir simplesmente porque um bando de gente vai dizer que sou moralista, preconceituosa e retrógrada. Prefiro assim. Sou roqueira, professora, mãe de uma banda de rock não viciada em nada e me orgulho que o meu não seja um submundo com ou sem fama. Porque, até onde alcançamos, não estamos na contramão do bom senso
.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Camisa de onze varas

Camisa de onze varas



Na sala de aula, depois de uma discussão normal, dessas que preparam a florada da boa redação, os adolescentes estavam em alvoroço. A questão do preconceito, ou a falta dele, sempre toca a alma inquieta de quem desnuda aos pouquinhos faces tão sensíveis das relações humanas. Em todo mundo, um dos lados está em carne viva, suportando a brisa dos comentários hipócritas que ficou bonito fazer... enfim.
Justo aí, achegou-se a menininha de seus 13, no máximo 14 anos; esperou que os outros saíssem da sala, aproximou-se com os olhos agitados, mas econômicos de informação. E quando eu pensei que da boca não ia sair coisa alguma, tamanho constrangimento seus gestos mostravam... a bomba: “Sabe, professora, eu mesma já perdi alguns amigos porque eu sou bi.”
- Sei. Bi.
- As pessoas não entendem as opções da gente.
- É verdade. Mas o mundo é assim mesmo. Um dia a gente muda.
No fundo, eu não sabia se olhava, se não olhava pra ela. Era uma criança! Como podia ter tanta certeza de que era bissexual? Fiquei ali, meio com cara de... imaginando: bom, pra imaginar isso, ela no mínimo deve ter experimentado os dois lados. Mas é tão jovem... Que triste não ter curtido mais a ausência desse instinto. Não é que seja ruim, É que ele nos atormenta a partir de um certo despertar e depois não sabemos mais olhar para pessoas e situações com a paz e a ingenuidade de um ser assexuado. Acho que é isso que sinto. Ainda não identifiquei muito bem.
Também, não sei se ver as pessoas e as situações como se fôssemos assexuados, sem qualquer pensamentozinho sacana, sem qualquer desejozinho... não sei se teria muita graça. Mas também, quem é que disse que o desejo em si – ainda por cima se for por alguém que o mereça – não tem algo de puro? Vai ver que os animais é que sempre tiveram razão. E nós é que sujamos as relações corporais com uma energia que não deveria existir.
Assim, hoje, quando dizemos que estamos voltando aos instintos animais, deixando rolar solto o que só os bichos é que se permitiam, talvez não seja uma reflexão de censura, mas uma observação de purificação.
Por outro lado, se as religiões continuam a nos mostrar que há caminhos considerados certos e outros considerados errados para o comportamento que damos a nosso corpo, é preciso ainda se aprofundar filosoficamente nesse aspecto em busca de uma razão, de um porquê, porque não é à toa que os conceitos se cristalizam, nem à toa que se bate tão forte numa mesma tecla.
Talvez, o problema da disseminação das doenças traga risco à humanidade, talvez a promiscuidade ponha em xeque o discernimento do que se sente por a ou por b, talvez o homem não tenha mesmo a pureza inerente aos bichos para ganhar tamanha liberdade sexual.
O homem consegue se libertar pelo sofrimento, mas, ao ser completamente livre, volta a sofrer de novo para refrear o que não controla. E, sejamos honestos, quanto mais podemos, mais perdemos o controle. Ocorre que a loucura nasce justamente no campo onde os limites não são identificados. E os limites não são os preconceitos. São apenas conceitos. Os nossos próprios, sejam eles quais forem.
A menina pensou que eu não refletira muito sobre o que ocorrera. Mas nem imagina o quanto me fez pensar. Ela foi-se embora tranqüila, crendo, sinceramente, que a professora a entendera totalmente. E eu, pobre de mim, enfiei-me numa camisa de onze varas que não há maturidade suficiente para clarear-me tantas dúvidas.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O inverno do meu tempo



Que é feito de você?, Cartola? Desta vez eu vou dizer que o deixaram desfigurado como cidadão de primeira classe. Sua vida, sua obra não representou sua força como um começo de respeito social, um começo de aceitação na roda dita civilizada e ouvida. Foi, sim, o fim da estrada que já não havia começado na infância. Foi a porta que não se abriu por inteiro.
Ouvir Cartola a dois, nós dois, num momento de grande sensibilidade, de amor profundo, de pureza, de verdade... tudo ótimo. Mas ele não se sentaria à sua mesa. Sobre o que conversariam? Seria o silêncio de um cipreste calando o que deveria levitar nas notas... A figura escurinha, cor da (des)esperança, ali prostrada, tiraria a magia da fonte, da ocasião. As rosas não falam, mas os outros... Não são os senões da cor, são os da condição cultural, social, econômica. Acontece que cultura, só serve a que for ilustrada dos clássicos, a condição social, só vale a das colunas sociais, e a econômica, só sendo a melhor. Enfim, ele tá fora da roda. Continua na roda do samba do morro, do samba da quadra da verde e rosa, ou do boteco do Mané, não na das “altas”.
Fita meus olhos, mesmo daí, e perdoa meus iguais e desiguais pelo pranto do poeta, pelos tempos idos, pelo silêncio do cipreste, pelos que difamam enquanto as rosas não falam, e, enquanto Deus consentir a mesma estória, dê bem feito a quem sequer é lembrado, porque só tinha cultura, condição social e econômica. Desses, não ficaram nem as notas verdes, quem dirá as musicais?!
Que sejam bem-vindos os cem anos que completas conosco. Não importam as dimensões diferentes, não importa se acham que é silêncio. Ciência e arte nos trazem teus sons de volta.

Discografia de Cartola:
1 Que sejam bem-vindos (Cartola)

2
Autonomia (Cartola)
3 Acontece (Cartola)
4 Senões (Nuno Veloso - Cartola)
5 O inverno do meu tempo (Roberto Nascimento - Cartola)
6 Que sejas bem feliz (Cartola)
7 Dê-me graças, Senhora (Cláudio Jorge - Cartola)
8 Quem me vê sorrindo (Carlos Cachaça - Cartola)

1 O inverno do meu tempo (Roberto Nascimento - Cartola)
2 A cor da esperança (Roberto Nascimento - Cartola)
3 Feriado na roça (Cartola)
4 Ciência e arte (Carlos Cachaça - Cartola)
5 Senões (Nuno Veloso - Cartola)
6 Mesma estória (Élton Medeiros - Cartola)
7 Fim de estrada (Cartola)
8 Enquanto Deus consentir (Cartola)
9 Dê-me graças, Senhora (Cláudio Jorge - Cartola)
10 Evite meu amor (Cartola)
11 Silêncio de um cipreste (Carlos Cachaça - Cartola)
12 Bem feito (Cartola)

1 Verde que te quero rosa (Dalmo Castelo - Cartola)
2 A canção que chegou (Nuno Veloso - Cartola)
3 Autonomia (Cartola)
4 Desfigurado (Cartola)
5 Escurinha (Arnaldo Passos - Geraldo Pereira)
6 Tempos idos (Carlos Cachaça - Cartola)
7 Pranto de poeta (Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
8 Grande Deus (Cartola)
9 Fita meus olhos (Osvaldo Vasquez - Cartola)
10 Que é feito de você? (Cartola)
11 Desta vez eu vou (Cartola)
12 Nós dois (Cartola)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Nepotismo nunca mais!

Nepotismo nunca mais!
Em que país mesmo?


O prazo que o Senado deu aos “abnegados” do povo para que parentes desses 80 escolhidos fossem bater noutra freguesia era 10 de outubro. Além de mandar as sanguessugas embora, ainda tinham que admitir o tamanho da caca, enviando uma simpática carta ao presidente do Senado.
Não se sabe se se intimidaram na hora de admitir quantos seriam os demitidos não demitidos, ou se, de novo, ponderando que isso aqui ô ô.. é um pouquinho de Brasil iá, ia, prazo é um detalhe que se conversa, que se negocia. Enfim, há de ter algum raciocínio do qual não temos alcance necessário.
Também pensei: que desrespeito ao chefe da casa! Quer dizer que o chefe manda e ninguém cumpre?! Ah! Como eu queria poder fazer isso, quando meu patrão me manda cuidar de alunos com necessidades especiais, junto com alunos ditos “normais”, quando nem eu nem meus colegas professores temos preparo técnico pra isso! Mas é a política de inclusão. É bonito. É justo. É correto. E eu cumpro. Eu não discuto, não desrespeito, não descumpro prazos. Atingimos uma droga de resultado, mas cumpro o que me mandam.
Até que a tarefa que os três poderes têm não é tão difícil assim. Dêem aos parentes o bilhete azul! Por que não cumprir? O povo também tem um prazo de validade no tocante à paciência. E a paciência está por um fio. Agora imagine só quando todo mundo souber que gente que não passa fome está mamando as últimas gotas das tetas do governo sem qualquer cerimônia, nem pressa de largar. Larga logo!
Por enquanto, a gente não tem nem como reclamar. Ou tem. Reproduzindo as palavras do Presidente do STF, Gilmar Mendes, “Cabe reclamação ao Supremo Tribunal Federal; esse é o instrumento. Pode depois haver desdobramentos, aí, a questão... aí deveria ser examinada especialmente pelo Ministério Público”. Também, o Presidente do Senado, Garibaldi Alves, reforça: "Qualquer cidadão pode denunciar, e o parlamentar pode ser processado, enfrentar um processo por crime de responsabilidade ou até mesmo de improbidade". Veja como estamos todos protegidos! Há uma lei que foi assinada, aprovada para que os três poderes cumpram, mas, se alguém não cumprir, só vai acontecer alguma coisa se alguém se sentir lesado e denunciar. Aí, entre a denúncia e a punição – que já se sabe qual será – vamos imaginar.... uns dois anos... três? Tá bom, três.
Só para coroar a notícia tão “bem” divulgada e divertida por fontes tão confiáveis do jornalismo global, fechamos com a pérola: “A presidência do Senado não soube informar que medidas poderão ser tomadas contra quem manter (Jesus! Era mantiver!) parentes no quadro de pessoal da Casa.” (Globo.com).

domingo, 12 de outubro de 2008

Engenharia em alta

Engenharia em alta: ... a etmológica


“As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei.
Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.”
(Drummond)

Certamente a última flor do Lácio não nasceu da lei, dessa escrita no que chamamos de Carta Magna. Houve uma história escrita pelo povo e o próprio povo foi quem assinou o decreto criador da língua portuguesa.
Daí por diante, também decidiram, pela facilidade de pronúncia, pela contaminação de outros povos, ir trocando uma letra por outra, omitindo aqui, ali, acrescentando sons, trocando sons de lugar, mas, com certeza, ninguém levantou a pena dourada embebida em tinta nobre para dizer como é que devia ocorrer esse processo.
Houve, sim, uma boa participação de Camões ao fazer uso tão primoroso do português que, baseado na beleza do arranjo que fez, alinhavaram algumas regras básicas para se usar o idioma. Pelo menos consultaram a produção de alguém de fato genial.
Mas a questão que não quer calar é : qual foi o gênio que inspirou as últimas normas (de unificação para os países lusófonos) decretadas para a língua, sem sequer uma verdade lingüística brasileira que justificasse tamanha cretinice? Se não foi para escrever as primeiras regras da língua - como foi o caso da inspiração em Camões - , se não foi porque no Brasil se escreve ou se fala diferente e a norma já não mais correspondia à realidade, por que diabos resolveram assinar uma lei que não deixou um único brasileiro feliz – os políticos de plantão não contam. Ah! Tem também uns doutores universitários que argumentam que a mudança facilitou o uso da língua. Mas quem é que precisa facilitar? Não me lembro de um único japonês ter tentado mudar a escrita para facilitar a comunicação de seu povo. E sabe por quê? Porque a língua, como ela é, contém a história de seu povo, contém as entranhas de cada situação vivida pelas pessoas que habitam aquele país. O português do Brasil não conta nada dos outros países lusófonos. Ele conta do Brasil o que o Brasil é e viveu.
Bom, não é a primeira vez que tentam estuprar a história da palavra. E olha que propostas anteriores desejavam mais. Queriam tirar letras mudas! Por bom senso de alguém que conseguiu ser ouvido, não o fizeram. Seria uma tragédia inominável! (Soubemos depois que seriam só as letras “c” e “p” e em palavras usadas em Portugal somente. Mas até que isso fosse dito, ficamos delirando...) Seria obsceno (ou osceno)! Se queriam tirar o país do obscurantismo (ou oscurantismo), removendo todos os abcessos (ou acessos) sociais, acho que não conseguiriam. Mas desta vez... não faço idéia (agora “ideia”) da lambança.
Desde 1907, a confusão de tentar unificar a língua já acenava no Brasil, até porque com o aquecimento do mercado editorial, não era possível fazer livros com um português para o Brasil e outro para Portugal. Ou seja, desde esse tempo, o capitalismo já gritava aos nossos ouvidos e nós tínhamos que suportar a trombeta que anunciava o apocalipse que hoje se vive.
Antes disso, sustentada pela mentira de um espírito de nacionalidade, evidentemente fragilíssimo – como é que aquele mundo de escravos mal tratados podiam ter esta terra como pátria?! Como é que os beneficiados pelos portugueses podiam dar valor ao que não lutaram para ter?! – já tentavam unificar a língua portuguesa por meio de acordos, com a publicação de decretos. E os gramáticos achavam ótimo. Apoiavam, achavam que tinha que ser assim mesmo. O português tinha que ser um só. No decorrer desse mesmo século XX, então, a Academia Brasileira de Letras era a defensora mor de tal postura. Afinal, os escritores produziam suas obras para o Brasil, mas também para Portugal. Se o português fosse diferente, eles estavam fritos literalmente. Não publicariam nada, não venderiam nada e estariam como 99% dos escritores de hoje: na lona.
Estamos nós na lona, mas sabemos criar um bom tumulto. E é isso que interessa. Se eu coloquei alguma pulga atrás da orelha de alguém, já terá valido a pena continuar duríssima.

sábado, 11 de outubro de 2008

Inspiração do Blog

Nosso Tempo
Carlos Drummond de Andrade


I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei.
Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas,
cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora sua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos
e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.