quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Que dia é hoje?
domingo, 22 de julho de 2012
NOSSA COR
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Animais em extinção
Animais em extinção
Arara-azul-grande
Caixu-preto
Galo-de- serra
Gato-palheiro
Jacaré-do-papo-amarelo
Jaguatirica
Mico-leão-dourado
Onça-pintada
Onça-preta
Papagaio-do-mangue
Preguiça-real
Suçuarana
Urubu-rei
7 tipos de aranha
Caracol
Minhoca
Minhocuçu
Besouro
Abelha
Formiga Quemquém
Saúva preta
Borboleta
Mariposa
Libélula
Sapo
Perereca
Rãnzinha
Jibóia
Camaleãozinho
Lagartinho-do-cipó
Lagartixa-da-areia
Jararaca
Cágado
Tartaruga
Pato-mergulhão
Beija-flor-das-costas-violetas
Pica-pau
Gavião-cinza
Águia-cinzenta
Araponga
Tico-tico-do-campo
Papagaio
Cervo-do-pantanal
Lobo-guará
Ariranha
Baleia
Boto-amarelo
Morcego
Sagüi
Macaco-prego
Tamanduá-bandeira
Quem não viu?
Quem não viu?
Arara-azul-grande
Papagaio-do-mangue?
Suçuarana divina
Sete aranhas
Sete pecados
Quem não viu, azar!
Veja o pouco que sobrar!
Onça-pintada, Onça-preta
Urubu-rei, caracol
Todos eles sem sol, no sol?
Pato-mergulhão
Mico-leão-dourado,
Quem não viu, azar!
Veja o pouco que sobrar!
Tudo largado
Perigo iminente
vida latente
caixu-preto, cágado
beetle desprezado?
Quem não viu, azar!
Veja o pouco que sobrar!
Jacaré-do-papo-amarelo
Numa preguiça-real?
A lagartixa-da-areia
Em pleno carnaval?
A borboleta, a mariposa
O lagartinho-do-cipó
O lobo guará, a baleia?
E, no olho do anzol, o nó?
Quem não viu, azar!
Veja o pouco que sobrar!
Galo-de- serra, Gato-palheiro
Jararaca, pica-pau
Tartaruga, jibóia
Que na mata nem faz mal?
Ariranha, boto-amarelo,
Morcego, sagüi
Cervo-do-pantanal
E o homem daqui?
Quem não viu, azar!
Veja o pouco que sobrar!
Na cruz vão pregar mais um
Como fizeram com Araponga
E vai-se ouvir mais um tico-tico-do-campo
Xingando o macaco-prego
Quem não viu que viver dói tanto...
Quem não viu, azar!
Veja o pouco que sobrar!
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Estações Humanas
Estações Humanas
Enquanto as flores abrem-se para a primavera
As folhas perdem espaço diante do colorido exuberante
Os troncos são cobertos
As raízes invisíveis
Mas, à chegada do outono,
Sem flores,
amarelo de folhas vira ouro,
o marrom do tronco dá a silhueta,
e a curva das raízes são caminhos.
Só, então, vemos: cada estação tem seu dom
E cada dom, seu brilho e vida
Em seguida esquecemos tudo
Para olhar o sol
E só a sombra importa no verão,
E só o abrigo das copas valem no inverno
É que o homem também tem estações
E cada uma delas uma visão
Um sentimento
Um senão
Uma letra de música a ser trabalhada
Caçadores do mapa do inferno
Enquanto a eternidade bate à porta
Vamos matando a vida
E a juventude eterna
É no mínimo bizarra
Enquanto se enterra o planeta
E se extermina o outro
Quanto mais irracional a vida
Mais parece boa
Quem quer o mapa do inferno?
Candidate-se à eternidade!
Viva jovem pra sempre
E enterre a realidade
Bem ali já marcaram um x
Na tua cabeça
Pra todo o sempre linda
Sem nenhuma novidade
Viver sem ter medo,
Sem esperar a dor da idade
Será com certeza mais um crime
Contra toda a humanidade
Pra que a vida surpreenda
É preciso morrer
Quebrar rotinas
Criar passados
Que não se refazem
É preciso voltar atrás
Inexperiente e sonado
Desprevenido e incapaz
terça-feira, 21 de junho de 2011
Luís Antônio – Gabriela
Luís Antônio – Gabriela
É fato que não gosto de ver cenas de sofrimento, não tenho tendência sádica. Sou muito mais masoquista. Por isso relutei um pouco em assistir ao espetáculo Luís Antônio – Gabriela, dirigido por Nelson Baskerville, e apresentado pela Cia. Mungunzá de teatro. É que já tive o desprazer de ver muitos sofrimentos nesses 51 anos e busquei uma postura mais distante da dor, mesmo que ela seja do outro. Egoísmo? Não, muito mais proteção para minha mente que já anda fragilizada pra certas coisas.
Mas fui. Extremamente insegura quanto ao que o espetáculo ia me inspirar na emoção. E me inspirou, porém, o que eu não acreditava mais: a corajosa postura de toda a equipe em refletir sobre a situação real que viveu um travesti e sua família;deu-me a impressão de que eu estava, até então, abstêmia de sentir, só para não admitir que a vida é mesmo feita de ações equivocadas, intolerantes, e reações dolorosamente de amadurecimento que ajuda a fechar feridas.
Nelson, irmão de Luís Antônio, revive na peça não só os fatos, mas cria uma linguagem para revelá-los extremamente inovadora, capaz de nos colocar no centro do palco, estando sentados diante dele. A alma caminha no cenário, devora as falas, arrepia-se diante do que mais deveríamos estar habituados: a verdade. Ocorre que não estamos. E não estamos também preparados para sentir a verdade por meio dessa forma de se comunicar. É que o espetáculo surpreende segundo a segundo pelo trabalho de símbolos que criaram. Tudo é simbolizado por um objeto, um figurino, uma luz, uma palavra, um bolo de palavras que se esfaqueiam diante do caos e da verdade. Eu nunca tinha visto um time teatral conseguir chegar a tanto. Mais que o fato, o símbolo atinge a emoção. E atingiram.
Não sei se todo mundo que assistiu ao espetáculo percebeu que alguma coisa nova está surgindo, mas está. Dentro de um profissionalismo brilhante, a peça não poupa os atores de mergulhar na personagem, na situação, na atmosfera, na vida. Mais que representam, vivem e fazem-nos viver também.
Sou de uma geração que lidou muito mal com as questões que envolvem orientação sexual diferente da gente. Fomos ensinados a rejeitar, a ridicularizar, menos aceitar ou pensar sobre. Pensar já era pecado. Não se podia fazer uma reflexão mais filosófica, orgânica, biológica sobre a razão de existirem os diferentes. E foi ali, sentada na plateia do espetáculo Luís Antônio – Gabriela, que tive a exata dimensão do que ainda não tinha percebido, aprendido e pensado.
Não sofri exatamente. As cenas não provocam sentimentos de piedade, raiva, ou irritação. Elas provocam vergonha em quem ainda não consegue superar a intolerância e a profunda reflexão sobre nós mesmos. Não há como não nos colocar dentro da fantasia e dos simbolismos apresentados.
Obrigada a todos vocês por terem me vencido dos medos que me sufocaram antes de sentar-me diante de Luís Antônio – Gabriela. Meus queridos Marquinho, Lucas, Verônica e todos os outros cujos nomes ainda não domino bem, enxerguem o portal que estão abrindo nesse momento em que a arte está tão escondida. Vocês vão escancarar um novo estilo, uma nova etapa da arte teatral, sem exagero nenhum. Parabéns, do fundo do meu coração.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Mereço o que é único
Mereço o que é único
porque também sou única
e enquanto aprecio a arte
a arte decifra o mundo
em cores, linhas, sonhos
como em meus olhos a ponho.
Mereço exclusividade
sem preço nem idade
sem modos numa festa
Mereço uma verdade
que ninguém detesta
que contou a peça
de uma vida em mim
Mereço esse afago
diante do qual me calo
pelo perfume multicolor
Mereço um calor na sala
na vida, na estrada
de quem vai partir
e com o sol se pôr
Quero expor o que não vejo
por ora, não me desejo:
efeito da negação de mim
meu cabelo e nele a cor
despetala-se essa flor
Quero expor e me despejo
numa tela sem moldura
acredito que mereço
uma luz mais viva e pura
Mereço ser rainha,
que sou mãe e menininha
mereço ser coroada
que no trono sou amada
mereço ter um carinho
que aqueço inteira a vida
sem tirar nem pôr da história
reservada no destino
Mereço felicidade
que acolho um rei de ouro
quando durmo beijo-lhe os louros
quando acordo sou verdade.
Minha sala nua, merece uma tv
Crua de brilho, em pleno natal,
se alvoroça por merecer!
se for Sony full hd, solidão não resta
Minha sala é sua, e merece uma TV
Se não for por minha poesia
que seja porque vejo nela você
Sem Rosa nem Raimundo
Sem Rosa nem Raimundo
Enquanto as teclas me querem
Dizer velozmente o meu mundo
Tô mudo, editei a Rosa,
Formatei o Raimundo
Deletei meu coração
Tem ali um marca-passo
E toda a tela da emoção
Passo a passo, copiei
Depois que fiz um download
Da felicidade montada
Num flash da Criação
Gravei aquela piada
Raimundo tá lá no blog
A Rosa criou seu site
Dela tenho o endereço
Dele só um slide
Se eu me chamasse Raimundo
Vasto mundo não morria
Como me chamo Maria
E a rima cabia
Só dá pra mudar a fonte
E dar enter em Rosa Maria
Trabalhando em versos, só para variar
Ai! A mocidade!
Nem vê o que marca n’alma!
(tulipa, extrema fraqueza)
Ai! A mocidade!
Que vê tudo e vê nada,
Furtivamente, do mundo
Não tem como a mocidade,
Seus cantos,
Nem viagens,
Nem visons.
Não se volta à mocidade
Por que voltar se não existe?
E carícia do fogo,
Deleite e dor.
E investida, é desejo,
É tempo que não conclui intento.
É tão lento e veloz
Que desperta saudade
Ai! Mocidade!
Coisa velha, repetida, batida
Ferida de todas as gerações
Sensações, canções, estradas
Que por fim desemboca árida
Num deparo à realidade
Que consome, some em morte
Corte eterno, eternidade.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Na ponta do iceberg
Aos olhos que não encantam ninguém
Não tem saída. Esquizofrênicos somos todos e todos pensam que vivem ao lado de um. Só não veem que ao seu lado há o seu próprio pânico e incompreensão do mundo. E no mundo, um outro bando de loucos – que me perdoem os corintianos pelo uso de sua antonomásia – que também não se sabem loucos.
É possível que não haja mesmo saída, mas o fato é que essa loucura em que todos estamos mergulhados nos faz acreditar piamente que a saída é logo ali, num comprimido mágico, numa macumba bem forte, numa bolada da loteria.
Não há mágica, não há números da sorte, não há medicação que responda o que a alma vem questionando desde que a vida veio a Terra. Mas, para consolo dos loucos, há quem estude essa nossa impaciência e há quem diga que “amanhã será outro dia”. Se for mesmo um dia novo, apenas o Sol nascerá à mesma hora e eu, talvez, acorde com a energia que o dia vai me exigir.
Parece coisa de louco? Parece-me que esse é o efeito real dos sistemas que o próprio louco implantou no planeta: não há prazer, há trabalho; não há verdade, há conveniência; não há amigos, há relações necessárias; não há conversa, há acordos; não há sequer Deus, há representantes Dele, e dos mais capacitados a negociar em Seu sagrado nome.
Não se vive o sistema, mas só se come o prato que se prepara; não se casa com o sistema e nem com ele se têm filhos, mas não se mora fora de seu teto, nem se dorme em cama que por ele não foi feita. O sistema não faz a minha nem a sua cabeça, mas degola-nos impiedosamente a guilhotina que o sistema artisticamente criou para impor a ordem e o progresso.
O sistema global e abrangente nos engoliu a alma, e mais, todas as outras que ainda virão para cá e nem imaginam o que as espera.
Sejamos, no entanto, esperançosos. O mundo é dos loucos! E espero, sinceramente, que algum deles faça a loucura de arrebentar com todos os sistemas e proibir a invenção de qualquer outro, embora corramos o risco de um outro maluco achar que proibir também é uma forma de sistematizar de novo mundo que então viveríamos.
Todos os riscos são as verdades que valem. Todas as precauções, mentiras grotescas e pálidas esperanças de um futuro qualquer. E é somente por isso que a humanidade continua construindo castelos de areia numa turbulenta ventania desértica. Não percebemos que tudo cai logo que pensamos ter concluído, e que a única construção que não é levada pelas intempéries é o pensamento do presente, o sentimento do presente, o desejo satisfeito agora e a proporção dessas três pérolas dentro das conchas humanas com quem partilhamos esse presente.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Rolam as pedras
Houve tempo em que “Rolam as pedras” só nos fazia lembrar dos Rolling Stones ou do grande sucesso de Kiko Zambianchi.
Hoje, elas rolam impiedosamente sobre Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo e tantos outros cantos desse Brasil paulista, mineiro, nortista e por aí vai. É evidente que quando não há possibilidade de se morar em local seguro, sobram os morros e as encostas para levantar o que chamam de casa, porque ali nem o governo vai reclamar a invasão.
Enquanto o governo fecha os olhos para tamanha barbaridade – pois vidas e vidas não vão se mover para pedir mais -, agora tem que se fazer presente, mas ainda se espreguiça diante da destruição que não poupou nem pobres calados, nem classe média desinformada por quem devia fiscalizar a situação.
Nosso solo já começa a gritar reivindicando os poros que foram asfaltados e fechados pela construção desordenada. Não tem pra onde correr, a água é bem que o homo sapiens não domou nem vai fazê-lo jamais. A água perdeu espaço e vamos perdê-la também. Por um lado, ela abre a fórceps caminhos por onde possa passar e reconquistar seu leito, seus lençóis, seu sono bom. Por outro, onde está acomodada, temperam-na com veneno, tirando-lhe o sossego e muitas vezes a vida.
Faltam poros, cidades com outros paradigmas, homens com visão do todo.
Dos mundinhos particulares e da ganância, a governança irresponsável se acavala uma após a outra.
Não custa muito que a consciência entre a ferros nos que sobrarem. Seus quintais já estão sendo engolidos por água e pó.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
A hora da Terra
Acho mesmo que o mundo vai acabar. Em 2012, como já disseram os maias e tantos outros. Definitivamente a natureza se rebelou contra a podridão humana. Revolveu o lixo abaixo do lixo emocional. Quem era bom, livrou-se de ver coisa pior, quem era lixo misturou-se a ele.
Não sejamos hipócritas! O homem, do jeito como se desenvolveu deformado, não tem muito que fazer para voltar a ser puro e ignorante, como fomos criados. A saída, provavelmente, será tirar tudo o que nos levou a essa situação de pragmatismo doente, de indiferença completa, de intolerância absoluta a tudo. Bem que houve quem nos alertasse: veio Cristo, Buda, Ghandi, Martin Luter King, Chico Xavier, João Paulo II, Dalai Lama, enfim, não foi por falta de aviso que o homem entrou pelos descaminhos humanos.
Quando Martin Luther King disse: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” , não tinham idéia de quantos gritos ainda ouviríamos e de quanto silêncio precisávamos.
Depois, Ghandi deu de bandeja a chave da felicidade, mas ninguém entendeu direito. Era difícil tornar a teoria em prática, então deixaram pra lá: "Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia" – Ghandi.
O fato é que está longe da harmonia "Uma civilização (que) é julgada pelo tratamento que dispensa às minorias."(Ghandi). Agora imaginem quando o que ele chamava de minoria tornou-se maioria dominada! Não há muito mais que possamos fazer? A impotência foi sacramentada pelas próprias Constituições, cujos deveres do Estado e da sociedade são ignorados porque todos que têm voz continuam brigando pelos direitos que não atingem a quase ninguém! Não estou dizendo que não se devam cobrar direitos ou que ninguém cumpre deveres constitucionais, mas o fato é que pela grandiosidade do mundo e de seus labirintos, o que acontece é quase nada. Ainda assim, esse grão precisa continuar na terra, regado a sentimentos e cuidados.
Pode ser que o Criador tenha perdido a paciência de vez e resolvera fazer a limpeza Ele mesmo. Quem não sabe manda, quem sabe faz. Perdemos o bonde.
Como uma última tábua de salvação, vale a pena, ainda que estejamos no fim, lembrarmo-nos de avisos bons: “Ame profunda e passionalmente. Você pode se machucar, mas é a única forma de viver o amor completamente.” - Dalai Lama.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Apaixonada pelo vento
Apaixonada pelo vento
Vejo as inúmeras paixões maquinadas pela sétima arte, pelas telas domésticas, mas poucas com a intensidade das que temos na adolescência. Parece que cada pequeno movimento com quem amamos leva-nos à quase inconsciência de prazer. Mas o prazer precisa ser lento, precisa ir tocando aos poucos cada degrau da intimidade... senão não tem graça, queima etapas da construção da paixão.
Nos filmes, ainda derramam um pouco mais desse mel lento, denso que custa a chegar à boca. Embora inúmeras críticas não reconheçam esse processo no filme Crepúsculo, deixei-me embalar pelo trecho romântico que a narrativa mostra. A impossibilidade, o desejo que aumenta a cada segundo, a inconsciência, a irracionalidade, todos são elementos que nos fazem de novo voltar às maiores emoções vividas. E não as tendo, se já passamos da oportunidade, apaixonamo-nos até pelo vento.
É um reviver sem elementos vivos, é um frio na barriga sem o encontro escondido ou arriscado. Mesmo no Crepúsculo de nossas vidas, todo ser humano devia ter a obrigação de sentir para sempre essa emoção. A insensibilidade pelo comodismo ou pelas circunstâncias difíceis que a vida nos apresenta não pode se instalar na alma em tempo algum. Simplesmente porque a melhor coisa da vida é sentir. E com total intensidade.
Ainda que as grandes emoções com o companheiro de tantos anos não sejam tão arrebatadoras, essa explosão precisa continuar, mesmo que seja só diante da natureza. Uma rajada de vento, muitas vezes, levanta-nos a cabeça, sacode e arrepia o corpo como foi um dia.
No entanto, a própria sociedade julga que impulso demais provoca o tombo... das relações estáveis, das relações familiares e até das com amigos que tenham uma idade em que alguns arroubos já não podem ser manifestos. Aí, o ser humano entristece, acha-se ainda mais velho, mais tosco, mais ridículo que a própria regra social. E está tudo acabado: os sorrisos, os olhares, as taquicardias, o arrepio, o impacto da paixão.
Se eu fosse Deus, metia um antibloqueador de paixão nas pessoas. Assim todas elas continuariam eternamente a sentir o magma dos vulcões se derramar por todas as veias... e todo mundo ia descobrir que dinheiro nenhum compra esse êxtase. Nenhum bem material se aproxima de tamanha felicidade. E os ladrões iam desistir de roubar, e os chefes iam sorrir o tempo todo, e as professorinhas iam se sentar no chão e aprender com seus alunos, e o homem nunca mais bateria numa mulher. E a mulher nunca mais reclamaria de seu homem. Porque assim é que é quem se apaixona. Nem que seja pelo vento.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Um dia...
Um dia...
Eu não acredito. Não quero acreditar no que está acontecendo neste país. O primeiro, o segundo, o terceiro poder e até o quarto – leia-se mídia – engordam pelo alimento da propina - praticamente uma Instituição Brasileira!
Aquele que era chamado de “1ª dama” no governo Collor, Sr. Paulo Otávio, agora número 2 da célula criminosa que se desnuda ao povo sem qualquer cerimônia, amontoa-se e multiplica-se em seus discípulos – até Dona Eurides Brito, que foi Secretária da Educação tanto tempo, de educadora tornou-se pupila.
As declarações de que a situação é de tal contaminação criminosa que dificilmente se terá o desvendamento de mais esse esquema sem uma intervenção federal são assustadoras. E mais assustador ainda é o sentimento de derrotados absolutos de que estamos imbuídos. Chegamos a crer que a esfera federal também pode estar derrotada pelo corporativismo, pela corrupção, pela face antiética tão cônscia de que caminha no bem. Bem de quem, cara pálida?
Enquanto os aposentados reivindicam a devolução do que lhes foi seqüestrado pelo fator previdenciário – herança maldita de FHC – e as escolas se transformam em antros de ineficiência moral e cultural, no Brasil há os que se embebedam com Chandon no melhor copo de cristal.
A gente nem quer Chandon, nem copo de cristal, bastava água de qualidade, arroz, feijão, verduras e uma lasquinha de carne no prato. A gente também não quer mais nada pela metade, como bem o disse o Titãs. Estamos fartos do pouco, do nada, do vazio, do imoral.
Se arruda servisse mesmo pra dissipar más energias, não estaria no centro do furacão que devasta a capital da República. Nunca mais hei de colocá-la atrás da orelha, corro o risco de perder o brinco.
Temos sim inúmeros caminhos que se desviam da revolução, da guerra civil, da desobediência irrestrita, mas tem horas que a gente quer mesmo é tomar as armas das mãos dos traficantes e dirigi-las ao Congresso, às Câmaras distrital e municipais, às Polícias que abandonaram seu papel, aos governantes que nos desgovernam a vida.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Se você me entender...
Se você me entender...
Às vezes fico imaginando o que teria mudado se, na ocasião da vinda de Cristo, tivéssemos desde o começo acolhido a sua missão como verdadeira. A história seria outra, porque nossos passos teriam sido no mínimo pautados pelo amor e pelo perdão: duas armaduras fortes o suficiente para organizar as relações humanas.
Não teríamos que abraçar religião alguma para seguir a filosofia do amor – a melhor “sacada” ideológica já pensada. Mas Jesus, como filósofo e pensador, não quis interferir no livre arbítrio de ninguém. Não era esse o caminho em que acreditava. Não repetiria o autoritarismo dos pais que obrigam seus filhos a fazerem o que não entendem. Era preciso primeiro o entendimento para depois a ação ser contundente. Não confundia autoridade com autoritarismo. Sabia que podia exercer sua autoridade, mas somente diante daquele que se curvasse a ela. E os que se curvaram foram heróis, persistentes, abnegados de tudo, foram exemplos de iluminação para uns, de burrice para outros.
E entre esses outros ficamos nós, execrando a quem perdoa não sete, mas 70 vezes sete, recrucificando os que amam a quem os faz sofrer. Não entendemos até agora qual é a vantagem da filosofia do Cristo. É porque não descobrimos ainda o profundo prazer do sentir sem que ninguém nos faça nada, do sentir simplesmente pela nossa própria ação. Não nos cansamos de comer no lixo, ou seja, alimentar-nos das migalhas alheias. Quando nos nutrimos do que nós próprios colhemos, e preparamos no fogo brando do conhecimento, e saboreamos com a simplicidade de nossa natureza, aí a satisfação é completa. Era mais ou menos isso que o Cristianismo primeiro esperava ensinar, mas com a interferência dos interpretadores como eu, desvirtuou-se muita coisa.
Às vezes ainda me dá vontade de fazer a única coisa que Ele nos pediu em favor de sua lembrança: repartir o pão e o vinho, como fizera com os seus. Mas o ritual tornou-se tão distante dEle, que nem sempre me sinto atendendo ao seu pedido. Seu único pedido. E escolho tentar entender o que de fato gostaria que fizéssemos para senti-lo mais próximo.
Lamento dizer, mas não dá pra dispensar essa sensação, é muito mais prazerosa que um vício, que o amor humano, que a carne, que o elogio, que a matéria. É única, mas vale lembrar que isso não me torna uma fanática, uma carola incorrigível ou coisa que o valha. Isso me torna mais humana, o que já não é tarefa das mais fáceis, quando se vive no meio de uma guerra que só conhece a barbárie. Também não se tornou um refúgio, porque não me escondo em nenhuma caverna nem repudio o asfalto em que me encontro. Estar no mundo é a parte mais difícil pra quem quer seguir o Cristianismo, mas também é a mais necessária. Como saber o gosto do mel quando só dele se provou?
Se tivéssemos entendido tudo o que Ele disse logo de cara, já estaríamos em estado etéreo, sem a matéria que apodrece, sem as misérias dos desejos. E a Terra já estaria numa nova era glacial, tirando todos nós daqui com uma única baforada de gelo. E estaríamos num outro planeta melhor, com mais Da Vinci, mais Mozart, mais Gandhi, mais rock, mais cor, mais crianças, mais velhinhos de bochechas cor de rosa, mais água, mais ar, mais bichos e luas. Não estaríamos aqui. Estamos fazendo um estágio – difícil, sem dúvida – que nos graduará para missões agradáveis, porque nenhuma delas será penosa, porque olharemos pra elas com um sorriso, porque toda dor teremos o poder de cessar.
Se tivéssemos entendido... não estaríamos nos nivelando aos animais, aos predadores cruéis, que mais matam por prazer que pela fome. Não entendemos ainda que dividir o pão pode ser o primeiro passo em direção à cura humana.
Mas não desisto. Continuo questionando, refletindo e mudando o que dá pra mudar. Quanto ao que não consigo ainda, Ele sabe qual é o meu tempo. Às vezes, levo 33 anos pra descobrir que o melhor era ter tentado. Às vezes, alguns dias bastam pra eu resolver uma vida. É assim que é. E não estou me sentindo incompreendida mais.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
O obituário do Zé Rodrix
Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje não mais. Pode ser de fulminante ataque cardíaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da família e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, já me encontrem morto, com um sorriso nos lábios.
Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, já que não poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que não cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso.
Peço parcimônia nos eflúvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedência uma fita de piadas gravadas para animar o velório e manter o pessoal na boa.
Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir.”
Lá só deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Não pretendo puxar a perna de ninguém à noite e nem assombrá-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possível. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus próprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre já será um grande intróito para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como já vou chegar lá, tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que não será difícil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as músicas que eu tenha feito. Minha morte servirá certamente para que se livrem não apenas de mim mas também de minhas obras. Os herdeiros também não merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da política do “VAI TRABALHAR, VAGABUNDO”, como meu pai fez comigo, já tomei providências para que essas músicas não lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velório moderno, recomendo músicas de carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num sábado à tarde, ser enterrado num domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte.
Muito grato.
Beijos.
Zé Rodrix
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Saudades do Zé
Saudade do Zé
De fato, o homem jamais vai aceitar a perda pela morte. E é bom que seja assim. É por isso que nos preservamos e protegemos aos que amamos mais que a nós mesmos. E quanto menos temos o poder de evitar o inevitável, mais nos sentimos traídos pelo que deveria simplesmente ser natural.
Dia 22 de maio perdi um amigo, e nenhuma outra designação cabe melhor que essa: amigo. Zé Rodrix entrou em nossas vidas pelas mãos da Tetê, minha filha, quando ela fez contato com o Clube Caiubi
Daí pra frente, um universo que eu não fazia idéia começou a ser desenhado com nossos encontros em família, nossas conversas, nossas risadas. Veio com a Júlia e a Bárbara ao meu humilde bangalô para comermos juntos, sentarmo-nos no chão pra olhar discos, livros, bem do jeito que achei que era, antes de sabê-lo melhor. Autografou-me um livro dele, falamos do Taiguara, da Elis, do Clube Caiubi e de todas aquelas figuras fantásticas com quem trabalhava: Sá, Guarabira, Tavito e tantos outros. Descobri até que eu tinha um vinil da Rosa Maria produzido por ele.
Ele acompanhou o primeiro trabalho sério de gravação do Hai Kai, encantou-se com os meninos tocando, compondo... Enfim, fez um lindo depoimento a respeito da banda no dia do lançamento do cd. Veio de SP especialmente para participar desse lançamento, e sua generosidade foi tamanha com quem ainda engatinha na pauta de que ele é dono, que passamos a considerá-lo padrinho musical do Hai Kai. E assim é. E assim vai ser sempre, porque não há como esquecer o que ele é, o que ele diz, o que ele doa de si mesmo.
Eu não sabia que doía tanto..., mas como acredito que a alma humana não se acabe com a morte, sei que estaremos juntos, numa casa de campo, no planeta que for melhor pra nós. O Zé já tinha desistido de adivinhar o que aconteceria depois, ele achava melhor esperar para ver quem é que tinha a razão. Talvez tivesse a convicção de que viveria por mais 30 anos e que, com a descoberta humana de todo o processo vital, não morreria mais. Ele não viveu os 30 anos pra ver, mas viverá muito mais por tudo que escreveu, cantou e falou, por tudo o que nos deu de afeto, sem qualquer expectativa de ser retribuído. Amava pelo prazer de sentir, cantava pelo prazer de espalhar sentimento, chorava pelo prazer de se entregar à melhor emoção da arte de verdade.
Que saudade doída, Zé... E ainda hoje te ouvi no rádio... com tanta vida! Eu sei que essa vida te acompanha, mas nós, tão pequenos e egoístas, ainda queríamos que você ficasse mais. Desculpa-me não entender ainda o que é que te espera do outro lado. A gente não te queria para o cosmos, mas só para nós mesmos. A gente tem noção de que por lá há coisa maior que o nosso desejo, mas não temos ainda a grandeza do desapego porque a ferida ainda está aberta. Quando fechar, vamos ver tudo bem melhor e, quem sabe, apreciaremos a tudo com o distanciamento suficiente para enxergarmos a tua vida mais nítida, maior e mais bonita ainda.
Por ora, fica bem e recebe esta homenagem que te prestamos.
sábado, 25 de abril de 2009
Adrenalina
É preciso buscar adrenalina!
É preciso buscar adrenalina?
É... preciso buscar adrenalina... Essa não é a resposta. Passou a ser preciso buscar adrenalina feito louco, mas por um motivo muito simples: a que existia exauriu-se com o sumiço da sensibilidade.
Você já observou que, quando tínhamos sensibilidade, qualquer canto de pássaro, qualquer cena de filme água com açúcar, qualquer gesto de atenção era suficiente para derramar adrenalina no sangue a ponto de disparar o coração, ferver as veias, aquecer as mãos, fazê-las suar de emoção? Muita coisa era motivo de emoção, boa ou ruim, não importava muito. O que interessava é que estávamos sempre envolvidos em uma montanha de sentimentos preenchendo espaços que hoje estão vazios.
Como é possível manter a sensibilidade quando a morte é tão banal quanto à vida? O nascimento de alguém já não carrega mais o milagre da Criação, como a morte não tem mais as cores do enterro. Ambos são tão-somente fatos como mais um acidente na estrada ou mais um show de rock que gera comentário por alguns minutos. Ao final desse tempo, o assunto tem que ser outro, sempre em busca de mais alguma adrenalina.
Qualquer atitude que beire o humano passou a ser infantil, piegas, um mico capaz de envergonhar o maior cara-de-pau da paróquia. Ridículo, falso, tosco, sonso, enfim, nessa linha, qualquer adjetivo serve.
Ficou difícil voltar à humanidade, no seu mais profundo significado. Somos sós e, para fugirmos dessa solidão incômoda, adaptamo-nos a um comportamento implantado por um estilo globalizado, sem mesmo questionar o que é que nós estamos fazendo. Não temos explicação para nós mesmos. Tornamo-nos macacos que imitam o tempo todo, sem ter a menor idéia de que as coisas podiam ser diferentes.
O tamanho do sofrimento dos jovens diante desse cenário é colossal. Qualquer coisa que os faça diferentes torna-se uma dor lancinante que nada mais é capaz de dirimir. Os pais, a essa altura do campeonato, embora tenham ensinado os filhos a serem assim “sociais”, não sabem como salvar a prole da tragédia grega em que se enfiaram. E não podem, porque ninguém é milionário pra suprir a tudo que um adolescente acha que precisa. E quanto mais se dá, mais está faltando!
Quando o ter não se destaca, entra em ação o desejo pelo perigo e pelo inédito. Aí, vêm os esportes radicais, o uso de drogas inofensivas, depois o experimento das substâncias novas no mercado, uma travessura com espingarda de chumbinho, um susto numa CDF da turma, brinquedos perigosos num parque famoso, um assalto, um cavalo de pau, um racha, uma morte, uma fuga... Aí a adrenalina chega a mil. Mas logo passa e será preciso outra loucura qualquer para ter aquela sensação de novo. E mais, e mais.
Essa busca não está mais restrita a jovens começando a conhecer a vida. Já atinge os adultos, os coroas, às mães, pais, avós, a toda uma época que perdeu a sensibilidade para ser feliz com o simples, o barato, o humano.
Às vezes nos sentimos uns ETs no meio de toda essa gente, mas no fundo, se temos muito mais adrenalina sem a transgressão tão cultuada, é porque ainda nos sobraram sentimentos. É um consolo.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Fome de contato
Com o progresso a olhos vistos em todas as atividades humanas, não seria de se estranhar que a árdua tarefa de ser pai, mãe, filhos adultos, familiares de quem tem dificuldades especiais também passasse pelo processo da terceirização. E, como sói ocorreria, terceirizaram a educação, a alimentação, os cuidados com a higiene, as regras de comportamento – quando estas existem -, enfim, a infância, a adolescência, a terceira idade e a deficiência física e mental.
Como o prestador de serviços para a criança e o adolescente é a escola, ela que se esfalfe para fornecer o produto completo aos 17 ou 18 anos daquele ser que pouca utilidade tem dentro de casa. Evidentemente, sob o reflexo do sistema capitalista em que estamos todos imersos, quem nada produz nada vale.
Crianças, adolescentes, velhos e deficientes são, enfim, o estorvo socioeconômico que ninguém quer arcar. Não havendo outra saída, são recolhidos nas sedes prestadoras de serviços, para rápida transferência de responsabilidade dos parentes para quem puder segurar o rojão.
E depois há quem diga que o capitalismo é um sistema de oportunidades sem igual, que quem quer, de fato, consegue chegar lá. Lá onde, Cristo? Na sinuca de uma terceirização de afeto que não é o dos pais, nem dos filhos que se livram dos idosos, nem dos familiares que mantêm a distância do deficiente que tanto exige de todos!
Era preciso terceirizar ou mecanizar, sim, o individualismo capaz de pisar no último suspiro de humanidade que nos resta. Assim, seríamos necessitados da companhia de todos, porque todos teriam alguma coisa a nos acrescentar, mesmo que seja o aprendizado de que todo trabalho que a convivência impõe tem também seus frutos: o retorno do carinho despendido, a preocupação e o auxílio do outro quando não formos mais assim tão “perfeitos”, jovens e capazes; o despertar da fome de contato verdadeiro.
Nossos filhos não podem ser peso afetivo, nem quando não vieram por nossa escolha. Nossos idosos não podem ser um peso morto, nem quando esperam numa cama o fim de um destino terreno. Nossos deficientes não podem ser desamados porque possuem as limitações cuja presença julgamos imperdoável.
O ser humano, em quaisquer condições de idade, de limitação ou de imaturidade, certamente tem ilimitados valores em aspectos que nem supomos, mas que precisamos desvendar pelo conhecimento e pelo sentimento de que nos gabamos ter só porque somos pessoas.
Pessoas não se ignoram, não se livram das outras, não precisam da idealizada perfeição. Pessoas deviam ter olhos para ver o quanto o imperfeito nos cresce, deviam ter ouvidos para ouvir a voz de quem viu mais que nós, deviam ter tato para sentir na pele o prazer de um afago. Pessoas nasceram para praticar a mais saudável das habilidades de que somos dotados: a humanidade.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Mosaico macabro
sobre ombros de gigantes." Isaac Newton
Não é à toa que abrir escola ficou mais fácil que abrir boteco. Pudera! É uma fábrica de dinheiro que, bem “administrada”, multiplica o capital - o que não é nada complicado depois que aluno virou mercadoria e professor virou massa de manobra contribuidora do enriquecimento ilícito de tantos espertalhões que se dizem educadores.
Eu explico. A maioria das pessoas não sabe que um significativo número de escolas particulares brasileiras contrata professores, muitas vezes, sem registro na carteira de trabalho, paga a maior parte do salário “por fora”, o que caracteriza um drible fantástico nos impostos que deviam pagar, e compromete sobremaneira a aposentadoria de um trabalhador que virou um nada.
O professor, como troco justo ao que é explorado, finge que ensina, o aluno, que não encontra qualquer afinidade com o saber, finge que aprende, e, no final das contas, todos fingem que existe um belo trabalho de ensino-aprendizagem porque o prédio é lindo, os equipamentos enchem os olhos e os professores posam de pessoas felizes e realizadas como se o seu papel tivesse sido cumprido.
O fato é que tudo que é sufocado, e ainda por cima sem lucro para todos, uma hora começa a apodrecer. E o mau cheiro já começou: alunos não respeitam ninguém dentro da instituição (e não há por que respeitar), professores perdem o juízo e partem para briga judicial com as escolas, ou se envolvem em atos mais sérios como matar donos de escola – coisa que, aliás, já se tem notícia -, alunos agridem colegas e até professores, sem que ninguém possa pôr a boca no trombone e dizer para o mundo que isso é fato; por fim, pais perdem a noção do verdadeiro estágio educacional em que seus filhos estão, visto que o que chamam de avaliação é um mero blefe dentre tantos outros que compõem esse mosaico macabro.
Ninguém consegue mentir o tempo todo e para todos. A sociedade já começou a ver o tamanho do buraco moral e profissional que as mais lindas escolas apresentam. Nem preciso falar da escola pública. Essa já se destruiu a tal ponto, e no mundo todo, que nos EUA uma escola passou a desconsiderar esse nome “escola”, preferindo chamar aquilo de espaço de aprendizagem. Quem sabe assim a vergonha do que representa a escola formal se dissipe e alguém se digne a ir ali para estudar.
Diante dessa realidade, o que resta é exaltar talentos natos de jovens que manifestam uma habilidade extraordinária na música, na matemática ou em qualquer outra área. Ficou claro que notícia mesmo, só nesses casos. E, como dá IBOPE, as grandes agressões ou situações como crianças de 5 e 6 anos planejando assassinar a professora é que ganham espaço. Até Brasília, não só pela podridão política, mas agora pelos escândalos de brigas violentas em escola, é manchete de vez em quando.
Quando se eliminou a exigência do respeito à etiqueta (pequena ética), eliminou-se também a importância dos grandes conceitos éticos, que se destinavam à harmônica convivência entre as pessoas.
Está certo que a ética é uma morada em constante construção, mas pelo menos todos concordavam que os tijolos eram indispensáveis. Embora a decoração e as cores possam não constituir consenso de todos os seres humanos, não é possível que desejem habitar uma ruína cujas paredes não tenham reboque e as janelas sejam usadas como portas.
Por fim, o golpe mortal desferido contra a educação veio da própria sociedade (lar, igreja, centros de convivência de qualquer ordem), que ignorou a etiqueta, a ética e a vida. Soltou todas as rédeas que impunham limites aos acordos, diálogos e ações, para encontrar a única fonte de satisfação: o prazer. O prazer a qualquer custo revirou a tecnologia em vício e o homem em poço sem fundo de intolerância. O resultado não poderia ser outro senão o reflexo do macrossistema em um microssistema chamado escola.
Dessa reflexão pode-se imaginar qual futuro nos espera. Cabe a cada um consertar a sua própria casa e a si mesmo, em primeiro lugar, como bem nos recomenda Confúcio.